Monday, March 30, 2009

Ensinar as crianças a blogar, a twitar, a mircar, a youtubar

é o mesmo, e tão útil é, que ensinar-lhes palavrões: nada do que elas não saibam já. A internet, tal como os palavrões, há muito que fazem parte da pré-escola: são conhecimentos pré-escolásticos.

De facto, as crianças terão mais a ensinar em matéria de internet, software e hardware e em matéria de vernáculo depreciativo aos respectivos professores do que estes terão a ensinar àquelas.

De resto, internet e palavrões andarão de mãos-dadas: a aprendizagem de uma destas categorias correlaciona-se com a aprendizagem da outra. De certa forma, a aprendizagem de qualquer categoria mais ou menos tabu correlaciona-se com a aprendizagem dos outros tabus todos. E pois evidentemente: já não há internet sem sexo e, talvez, sexo sem internet (será?).

É claro, a internet, o sexo e, naturalmente, os palavrões têm esta coisa em comum: são muito bons quando bem usados.


Agora, as questões fundamentais são estas:

- em relação à internet, o problema não é a aprendizagem nem o conhecimento (só se for o problema da aprendizagem de professores arcaicos e desinteressados que não sabem para eles quanto mais para os alunos). O problema é Portugal ser um país em que classe média baixa significa um poder de compra muito baixo mesmo, em que os computadores, por incrivelmente baratos que se estejam sempre a tornar, ainda são um luxo para milhares e milhares de famílias. O problema é Portugal ser um país em que os mercados não são competitivos, as cartelizações serem a norma, as autoridades de concorrência serem fracas, lentas e desautorizadas pelo ministro da economia e, em resultado de tudo isto, o acesso à internet ser extremamente caro e de péssima qualidade. Distribuir "Magalhães" e introduzir aulas sobre computadores melhora só muito pouco a vida das pessoas e não resolve problema nenhum e até pode ser bem frustrante: é só pensar no aluno que aprende a usar o computador na escola só para chegar a casa e saber que os pais se têm dinheiro para o computador não têm dinheiro para a mensalidade da ligação, cara e má, à internet, e se têm dinheiro para esta, não têm dinheiro para aquele (isto para não falar naqueles que nem dinheiro para uma coisa nem para a outra têm...).

O que pode melhorar, e muito, a vida das pessoas é descartelizar o acesso à internet para que haja concorrência neste mercado e, daí, os preços baixem e a qualidade suba. E bem melhor faria o governo se desse apoio directo - sim, em dinheiro - às pessoas que mais precisam dele.


- em relação ao sexo, o problema não está no debate sobre se a educação sexual nas escolas é necessária ou não. O problema está no facto de que sendo a esmagadora maioria das escolas propriedade do Estado e tendo, portanto, um programa comum, as famílias não terem liberdade de escolha em relação à natureza ética (e não só!) do currículo de Educação Sexual, tal como não têm, por exemplo, em relação à natureza técnica do currículo de Matemática. Como as escolas são todas iguais, não há liberdade de educação e todos os currículos são únicos para todo o país, qualquer alteração a um parâmetro que seja no currículo de Educação Sexual torna-se num problema nacional - e numa imposição do Estado, ou melhor, do bando de "pedagogos", "psicólogos" e ideólogos do momento, a toda a nação.

Aqui, o que pode melhorar a vida das pessoas é definir medidas que levem à liberalização do ensino e à liberdade de escolha da educação das crianças. E, já agora, o apoio - directo! - às famílias mais necessitadas para que lhes sobre um pouco mais de tempo - dinheiro é tempo: dar dinheiro é dar tempo - para não precisarem tanto de fazer também este outsourcing dos deveres parentais, isto é, para que tenham algum tempo para transmitir algum conhecimento de educação sexual às suas crianças.

Angola, Jerusalem

As time passes, history keeps rolling, I keep learning and thinking, life experience keeps flowing - there is one thing that gets as clear as thin glass: the impossibility to take sides in the (past) conflict in Angola (UNITA vs MPLA) and in the eternal conflict around Jerusalem (Israel vs Palestina). I have known this impossibility since I remember these conflicts. That impossibility is still the same, history hasn't change the balance of dignity to neither side, but time, not history, as made it definitively clear. The time for a resolution, or for no resolution at all, and the time for a bloody and unsettled end of war - has contributed not only to the impossibility to take sides but to the impossibility to expect real peace.

Wednesday, March 25, 2009

"condenados a [x] anos de cadeia com pena suspensa por igual período"

Condenados a [x] anos de cadeia com pena suspensa por igual período. Condenados a tantos anos com pena suspensa por igual período. Condenados com pena suspensa por igual período. Pena suspensa por igual período. Pena suspensa. Sempre pena suspensa.

Em Portugal há esta lei terrível e recente que proíbe o Ministério Público de pedir pena de prisão efectiva sempre que o crime em questão seja punível no máximo com y anos de prisão. E creio haver também uma norma, também recente e terrível, que obriga os juízes a suspender quaisquer penas de prisão desde que a duração vá até z anos.

Crimes financeiros, crimes de sangue, crimes do pior, quaisquer crimes: já não se trata apenas de uma probabilidade baixa, por vários motivos, de um criminoso ser preso: trata-se de uma probabilidade nula.

Os números da impunidade no sistema penal português são estes: a probabilidade de um criminoso ser identificado e "apanhado" é baixa VEZES a probabilidade de se tornar acusado é baixa VEZES a probabilidade de alguma coisa ficar provada é baixíssima VEZES a probabilidade de ser condenado é baixíssima VEZES a probabilidade de, todos os recursos passados, a pena ser reduzida é alta VEZES a probabilidade de, transitada em julgado, a punição ser a prisão é baixíssima VEZES a probabilidade de a pena de prisão não ser "suspensa por igual período" é praticamente nula.

Número final, o número da impunidade penal portuguesa: a priori, antes do acto, no momento de decidir mato/não mato, violo/não violo, espanco/não espanco, torturo/não torturo - nesse momento, aquele que tem intenção de praticar um crime, sabe que a probabilidade de um dia vir a ser preso, preso efectivo, é aproximadamente zero.


O que ainda vai garantindo alguma paz social em Portugal é a falta de "consciência de classe" em relação à impunidade: a maior parte das pessoas talvez só vagamente se tenha apercebido da impunidade geral, por um lado, e, por outro e mais importante lado, a maior parte das pessoas, mesmo que se tenham apercebido disso, não têm conhecimento de que outras pessoas estão igualmente idignadas.

O que separa a indignação geral da revolta geral é só isto: uma assimetria de informação. Quando toda a gente souber que toda a gente sabe, pensa e sente o mesmo, então o resultado necessário será o fim da paz social.

Sunday, March 15, 2009

Ouvir Pela Terceira Vez

Não deveria haver a primeira vez que se ouve um cd. Nem a segunda. Devia-se começar logo pela terceira vez.

Book Critique (i): My Name is Red by Orhan Pamuk

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Oscar Wilde said art critique was the best of arts. Art was nothing but an excuse to produce art critique. And it is very true that, often, art critique is so much torn off from its subject, or object, that one can't recognize the object in the art critic's text.


It is like those professional comments on wine: it has a fruity flavor, a taste of honey and chestnuts, the aroma of antique oak from the cask gently caresses the palate and... and all those wine-critique clichés that no one ever really finds a justification for while drinking "the nectar of gods".


In the case of "My Name is Red" by Orhan Pamuk, some of the book-critic clichés are marvelously justified as one keeps on reading it, without a stop. And isn't "reading without stopping, from page one to end" the biggest cliché in book-critique?


The immediately catchy feature of the book is its narrating strategy (let´s call it this way). Each chapter, the narrator voice, perspective and being is changed from one character of the story to the other, from protagonist to co-adjuvant character, from man to woman, master to apprentice. And no one has godly-knowledge of the story, not even about its main stream of events. And all those characters invoke our attention and talk directly to us ("us" means the reader, I didn't mean "me", eventhough those heroes and culprits of course specially enjoy addressing myself).


Now, the book offers many layers or planes (what is exactly that word book-critics are so fond of?) to the reader (and if the book offered something to someone else but the reader, who would that be?). First, there is a crime, a murderer, and we are urged by the victim himself to find who the assassin is. Second, there is the love story. Then, there are many aesthetic, philosophical and even religious questions that keep on being raised as characters dialogue and reflect. For instance, what is the importance of an artist's personal style in rendering his art? Is art important in itself or only as a means for some religious objective?


Also, some east-west antagonism is addressed. And the customs and traditions of a part of the Islamic world - Istanbul, XVI century - are shown in detail. Indeed, the scenario making ability - the interiors, landscapes, the objects, the social panorama - of Orhan Pamuk is extremely caring and (here comes another cliché) rich.


Thus, it is the descriptions, it is the multiple languages from the many narrating characters, it is the different ways they narrate the portions and perspectives of the story they have witnessed, it is the story itself, it is all the philosophical inquiries that are kept alive, it is the mystery, it is even the eroticism - each of these, all of these aspects are enlivened at a level of a genius and the result is a magnificent (the book-critic can neither run nor hide from this one word, can he?) masterpiece (no comment about the use of this term).


Each and every element in "My Name is Red" is sublime. Among all those jewels, let me select my favorite: Shekure. I get wonderfully fascinated and wittily delighted while reading the chapters told by the main female protagonist of the story. Telling of love and houselife, conjecturing about crime and about men - all of these directly from the mouth and soul of an Islamic Instabulite woman, and not just an "ordinary woman", but a fascinating one - is absolutely marvelous.


But it is not only Shekure who strongly seduces us: it is the whole of the masterpiece and it is each of its elements, just like a beautiful picture (in a XVI century illuminated book?) which first completely captures our attention because of its unique hues and, then, drives it to ever finer and graceful details.



Oh! And what art does to us! I've even forgotten I have some rice to get made and eaten!

Saturday, March 14, 2009

Apetecia-me tanto ir agora até ao Guincho!...

Apetecia-me, apetecia-me, apetecia-me.

Saturday, March 07, 2009

Like a long forgotten...

... and rediscovered secret ritual,

I am listening to the gentle music of

Antony and the Johnsons.

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Questo Pomeriggio Mi Sento Così (xx)

Ben Harper, Ben Harper and Ben Harper
and the Innocent Criminals.