Tuesday, June 03, 2008

A Tristeza da Triste Direita Liberal em Portugal

Lendo blogues... sentimo-nos cada vez mais perto de deixar de ler blogues de direita tout court. Assim como deixámos de ouvir a Mega FM no dia em que passou João Pedro Pais ou André Sardet ou assim uma coisa do género. Houve um tempo em que pensávamos que a melhor maneira de fortalecer as nossas convicções era, depois de ler as convicções "inimigas" declaradas e defendidas pelo "inimigo", encharcarmo-nos com as nossas convicções defendidas por quem pensava como nós! E que felicidade era descobrir na net que, realmente existentemente na vida real a três dimensões e com voz e carne, havia quem pensasse como nós! Ah! o despontar da direita na blogosfera! Ah, o despontar da blogosfera por causa da direita! Mas ultimamente, tem sido tudo ao contrário: quanto mais lemos aquilo que era ou parecia ser as nossas ideias - escritas por outros, mais ou menos famosos, ou a tentarem ser famosos - quanto mais lemos essas ideias, mais vemos o seu exagero, talvez a sua insensibilidade. No fundo, o seu ridículo. Todas as ideologias são ridículas! Alguém tinha de dizer isto!

Mas... não são bem as ideias que são ridículas. Não, de facto não é isso. O que é, é esta maldita coisa da duplicidade de critérios. Neste país de esquerda ou extrema-esquerda que Portugal é (e coitadinhos dos turistas que vêem em Portugal um país muito católico...) é preciso alguma coragem para dizer coisas como Fidel Castro é um assassino, o regime de Stalin foi o mais mortífero da História, ou verdadeiras blasfémias como o impacto do 25 de Abril na economia foi o de uma catástrofe. Corajosos os que dizem coisas como estas! E que alívio encontrar na blogosfera quem diz tais coisas! Mas depois, esses mesmos que são tão corajosos e sensatos em reconhecer, por exemplo, o horror que foi a imposição violenta do comunismo sobre uma série de países - esses mesmos dão apoio ao horror da estúpida e cruel invasão e massacre de um país chamado Iraque pelo simples facto de ter sido levado a cabo pelos Estados Unidos, o suposto símbolo do liberalismo de direita no mundo (um mau símbolo, por sinal).

Quanto mais lemos a defesa da política internacional dos Estados Unidos por tantos supostos liberais de direita, quanto mais vemos a facilidade com que eles apoiam a guerra de uns ao mesmo tempo que condenam, e bem!, as guerras dos outros - mais eu vejo como, no fundo, é tudo igual: tanto os nossos inimigos ideológicos como os nossos amigos, todos eles apresentam esta duplicidade de critérios. A duplicidade de encontrar assassinos justificados, os nossos aliados, e de justamente condenar os assassinos do outro lado do espectro político que, afinal, só não são justificados simplesmente por estarem do outro lado...

É isto e outra coisa. O liberalismo de direita, o capitalismo liberal precisam de basear-se no mérito e na concorrência. É a concorrência que garante, por exemplo, as boas características do sistema de mercado. No entanto, os blogues de direita e os blogues liberais estão a transbordar de exemplos de pessoas que em nome da concorrência e do mercado defendem exactamente o contrário da concorrência e muitas fazem-no por reacção contra alguém que, sendo comunista, acaba por demonstrar um melhor conhecimento da economia liberal.

Muito recentemente, em Portugal no mercado da edição de livros, tem havido empresários que têm adquirido várias editoras antes independentes. Apareceram então os intelectuais de esquerda, os intelectuais comunistas a queixarem-se que os livros vão passar a ser mais uma mercadoria qualquer, mais um produto capitalista, os livros serão afastados da arte, etc.. Vieram os liberais da direita, vieram os capitalistas dizer que isto é simplesmente o funcionamento do mercado, isto é a CONCORRÊNCIA, que só faz bem e é do que o país precisa.

Muito bem que a concorrência é do que Portugal precisa e é através dela que todas as características notáveis do sistema de mercado se realizam na prática. Mas... quando o número de empresas independentes diminui porque uma empresa decidiu comprar outras, ou várias decidiram fundir-se numa só, é a concorrência que diminui. A concorrência diminui quando o mercado deixa de ter uma multitude de empresas pequenas para passar a ter algumas grandes ou duas ou três muito grandes, no caso em que a grande dimensão resulta não do aumento das vendas (do vencer o jogo da concorrência) mas sim da mera aquisição de outras empresas. O que se está a passar no mercado livreiro em Portugal é uma redução da concorrência e não o contrário, a entrada em cena de megas empresas terá o efeito de reduzir a quantidade, a diversidade e a qualidade e o aumentar dos preços! E isto é o que uma pessoa que perceba um bocadinho de nada da microeconomiazinha mais simples dirá sem hesitações.

E, no entanto, quantos blogadores de direita não dizem precisamente o contrário, que o mercado livreiro português está é a modernizar-se e as recentes alterações são apenas o resultado da salutar concorrência...

Como é possível alguém de direita liberal dizer estas parvoíces completas? Como é possível denotar tanta ignorância em relação a um mecanismo tão simples?! Se o número de empresas diminui, a concorrência diminui, o mercado deixa de funcionar.

Será que a direita que acha que o mercado editorial português está a modernizar-se afirma isto simplesmente porque tem uma espécie de reflexo condicionado de negar tudo o que seja proferido pela esquerda?

O outro exemplo recente, que nos fez mesmo ter vontade de nunca mais ler blogues de direita, tem a ver com os preços dos produtos petrolíferos em Portugal.

A esquerda comunista estalinista e comunista trotskista é campeã da imbecilidade económica. E sente orgulho nisso. A argumentação económica de causa-efeito deles tem originado os raciocínios mais caricatos e surrealistas.

Por outro lado, tirando as nacionalizações e expropriações (a violação do direito de propriedade), não há nada mais gravoso para o funcionamento de um mercado do que o controlo do preço por parte do Estado.

NO ENTANTO, existem casos, e existe em particular este caso, em que mesmo os economistas mais neo-liberais educados nos Estados Unidos, mesmo os economistas mais capitalistas e mccarthystas que se possa imaginar, mesmo os textbooks das melhores universidades americanas concordam em que a regulação directa do preço pode fazer sentido e tem, no mínimo, de ser equacionada: quando existe um monopólio e esse monopólio é natural e a mera liberalização da entrada no mercado não gerará mais concorrência.

Quando os estalinistas e trotskistas falam no controlo dos preços nos mercados petrolíferos portugueses, a sua razoabilidade não tem de ser diminuída pelo facto de eles serem estalinistas e trotskistas. E vir a suposta direita liberal atacar essas propostas por serem loucas revela uma coisa: ou a direita liberal pura e simplesmente não sabe o que é concorrência e o que é monopólio, ou a direita liberal está mais interessada em atacar as pessoas por aquilo que elas são do que por aquilo que elas dizem.

Mercado da gasolina em Portugal: uma única empresa a montante do lado da refinação. A jusante, do lado da venda aos consumidores finais, um número reduzidíssimo de empresas, sendo que as três maiores detém quase o mercado todo e sendo que a maior delas detém uma parte muito grande. Para tornar tudo ainda mais saudável, eis que a maior das empresas retalhistas é também a monopolista da refinação.

Concorrência? Mercado? Previsão de preços baixos, alta qualidade e alta diversidade de produtos???

SÓ UM LOUCO! Qualquer economista, qualquer não economista, qualquer comunista, qualquer capitalista, qualquer não liberal e qualquer liberal deverá saber que o que está aqui em causa é uma total falta de concorrência por vários motivos todos ao mesmo tempo. A elevada concentração do mercado a jusante, o monopólio no mercado a montante e, para piorar tudo, o monopolista a montante é a maior empresa a jusante.

O mais ultraliberal dos neo-liberais reconhece aqui um exemplo para o capítulo das "falhas de mercado" e coloca sobre a mesa o livro da regulação económica e defesa da concorrência. E abre-o na página em que se fala de coisas como desmembramento do monopolista e regulação directa do preço. Quando o mercado não funciona, o mais ultraliberal dos neo-liberias, por convicção no mercado e na concorrência, e não por convicção no seu contrário, prepara-se com o bisturi ou com a serra-eléctrica e espera sangue.

Separar a Galp da refinação da Galp do retalho, e retalhar a Galp do retalho em várias empresas independentes; ou fazer regulação directa dos preços praticados pela Galp não são loucuras estalinistas/trotskistas: são o tipo de propostas discutidas pelos juízes mais conservadores e ultraliberais num qualquer tribunal de concorrência americano.

Agora e ainda, para nos fazer sentir cada vez mais enfadados com a direita dos blogues, a direita dos blogues anda triste porque Passos Coelho, o D. Sebastião liberal, oh surpresa! não venceu as eleições para presidente do PSD. E, por outro lado, anda também muito triste com a morte arrastada do CDS-PP. A direita liberal não está interessada em criar um partido e, sendo assim, fica dependente e à espera que um qualquer partido que ou não é liberal (o CDS-PP) ou não é de direita (o PSD) por qualquer razão obscura venha a tornar-se dirliberal. E depois, enquanto o PSD se mostra cada vez mais à esquerda e o CDS-PP cheira cada vez mais a decomposição inorgânica, a direita liberal fica muito supreendida e triste coitadinha...

Mais, a direita dos blogs queixa-se que se o CDS-PP, ao menos, se tivesse voltado para a direita liberal, então, talvez por milagre, fosse renascendo em termos de popularidade e intenções de voto. E apostamos que se por acaso o PSD de Manuela Ferreira Leite fracassar, a causa do fracasso será não ter escolhido o suposto liberal Passos Coelho para presidente...

A direita liberal dos blogues não vê que sem um partido PRÓPRIO nunca vai sair da blogosfera para lado nenhum.

E, definitivamente, vai sendo cada vez mais triste ler blogues de direita em Portugal.

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