Sunday, February 10, 2008

Gisberta, Gisberta, Gisberta

Gisberta, Gisberta, Gisberta, Dogville, Gisberta: strangely enough, one of the reasons why I created this blog was Gisberta. In the following days, I will try to (re)post here everything I wrote about Gisberta. Meanwhile, a text by Alberto Gonçalves from Diário de Notícias about Gisberta:


UMA HISTÓRIA DESUMANA

Há dois anos, no Porto, catorze rapazes passaram uma semana a torturar um homem doente que vivia, digamos, num edifício devoluto. Juntavam-se de manhã e decidiam: "Vamos bater na 'Gisberta'" (o homem submetera-se a uma mudança de sexo). Durante seis dias, bateram. Quando os gemidos do desgraçado já mal se ouviam, cansaram-se e pensaram em chegar-lhe fogo. Receosos do aparato, optaram pela discrição e lançaram-no a um poço. A autópsia determinou que o desgraçado morreu por afogamento, o que para efeitos práticos lembra alguém que morre de pneumonia agravada por um golpe de machado na cabeça. Quem viu as fotos do cadáver descreveu-me o horror absoluto. Acreditei.

Difícil é acreditar no que se sucedeu. Dos rapazes, nenhum foi condenado por homicídio: treze foram internados em "centros educativos" e o único com mais de dezasseis anos à data do crime ficou dois ou três meses em prisão preventiva. O julgamento deste começa agora, com desfecho previsível. Uma reportagem do DN descobriu que dez dos restantes já regressaram a casa.

A reportagem, de João Paulo Mendes, descobriu ainda um discurso comum a tribunais, juristas, psicólogos e familiares: os agressores não são culpados pelos seus actos. Dado que os moços, coitadinhos, eram pobres e, na sua maioria, "internos" de um colégio, eles não mataram "Gisberta". A direcção do colégio matou. A sociedade matou. Todos nós matámos. Mas matámos quem? Um "homem com mamas", na lendária opinião do juiz do caso. Um "transexual", para as associações "gay" que reduziram "Gisberta" a símbolo. Um "cliché", de qualquer modo, à semelhança dos moços carentes de "afecto" que o tomaram por brinquedo. Eis uma história literalmente desumana, no sentido em que nenhuma das suas personagens corresponde a uma pessoa inteira. A cultura do relativismo e da irresponsabilidade tende a criar enredos e desertos assim.

by Alberto Gonçalves in Diário de Notícias February 1oth 2008

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